O que os CEOs esperam de 2026
- Marcelo Camorim

- 28 de jan.
- 3 min de leitura
2026 exigirá dos CEOs prudência, inteligência financeira e decisões baseadas em dados. Não em otimismo.

Marcelo Camorim em evento de abertura do comitê LIDE CEO. Foto: @Zutto
O ano de 2026 se apresenta como um período de transição, marcado por incertezas, rearranjos geopolíticos e decisões estratégicas que exigirão dos CEOs ainda mais leitura de cenário, cautela e capacidade de adaptação. Não se trata de futurologia, mas de observar movimentos já em curso, tanto no ambiente internacional quanto na economia brasileira, e compreender como eles impactam o mundo dos negócios.
No cenário global, é impossível ignorar a mudança no eixo de poder econômico. Os Estados Unidos seguem como uma potência tecnológica e militar, mas já não exercem a mesma hegemonia comercial de décadas atrás. A desindustrialização americana abriu espaço para o fortalecimento de outros players, especialmente a China, hoje a maior exportadora mundial, e a Alemanha, como potência industrial europeia.
A tentativa de reindustrialização dos Estados Unidos, intensificada nos últimos anos, passa por políticas protecionistas e pelo uso mais explícito do poder militar como instrumento geopolítico. Esse reposicionamento, associado ao estilo imprevisível do presidente Donald Trump, tende a gerar turbulências no tabuleiro global em 2026. Ao mesmo tempo, diversos países buscam reduzir sua dependência econômica dos EUA, diversificando parceiros comerciais e rotas de exportação.
Nesse contexto, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia ganha relevância estratégica. Para a Europa, especialmente no campo agrícola, o tratado representa uma alternativa concreta à dependência de produtos americanos. Para o Brasil, reforça a posição como fornecedor global de alimentos e consolida uma diplomacia comercial mais plural. Soma-se a isso o avanço do uso do yuan em transações internacionais, inclusive com países como Irã e Venezuela, o que pressiona a hegemonia do dólar e altera a dinâmica financeira global.
Esse novo desenho geopolítico não é estático. Ele será acompanhado passo a passo pelos líderes empresariais, porque dele derivam riscos, oportunidades e decisões que afetam investimentos, cadeias produtivas e planejamento de longo prazo.
No plano interno, o Brasil entra em 2026 com desafios conhecidos. A taxa de juros deve permanecer em dois dígitos ao longo do ano. As projeções indicam algo em torno de 12% ao ano até dezembro, patamar ainda elevado para quem vive de investimento produtivo. Mesmo com possíveis cortes graduais nas primeiras reuniões do Copom, o custo do dinheiro continuará alto.
Os dados mais recentes da indústria mostram uma economia andando de lado, com crescimento próximo de zero no fim de 2025. Isso sinaliza que 2026 não será, do ponto de vista macroeconômico, muito diferente do ano anterior. Soma-se a esse quadro o fato de ser um ano eleitoral, o que tradicionalmente leva a um aumento de gastos públicos e estímulos à economia.
Medidas como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda colocam mais dinheiro em circulação, o que pode aquecer o consumo no curto prazo. Haverá, sim, mais recursos na praça. O problema é que será um dinheiro caro. Para as empresas, isso significa crédito mais oneroso, investimentos mais arriscados e maior atenção à gestão financeira.
Para nós, CEOs, o alerta é claro. Investimentos em capital de giro, máquinas, tecnologia e pessoas continuarão custosos. É fundamental avaliar com rigor cada decisão, projetar cenários e, sempre que possível, postergar investimentos que não sejam estratégicos ou urgentes. Se houver acesso a capital mais barato, ótimo. Mas essa será a exceção, não a regra.
Outro ponto de atenção é a inadimplência. O aumento do crédito em um ambiente de juros elevados tende a cobrar seu preço nos anos seguintes. Endividamento excessivo em 2026 pode resultar em problemas relevantes em 2027 e 2028, tanto para famílias quanto para empresas.
Em síntese, 2026 será um ano que exigirá prudência, inteligência financeira e visão estratégica. Haverá oportunidades, mas elas estarão cada vez mais associadas à capacidade de ler o mundo, entender a economia e tomar decisões baseadas em dados, não em otimismo excessivo. Para os CEOs, mais do que nunca, governar bem será sinônimo de resistir, ajustar e preparar o terreno para ciclos mais favoráveis à frente.
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